Uma média municipal pode esconder bairros vizinhos com acesso muito desigual a alimentos e farmácias. Um único número por cidade não mostra onde fica o comércio que a população usa no dia a dia. Comparar bairro a bairro mostra quem tem varejo alimentar perto de casa e quem não tem. Os dados públicos analisados aqui cobrem apenas o varejo alimentar; as farmácias exigem outra base ou levantamento de campo.
Por que comparar supermercados e farmácias por bairro?
Média municipal e realidade do bairro
Uma média municipal costuma resumir a oferta em um único valor para a cidade, por exemplo estabelecimentos por habitante. Ela serve para comparar cidades entre si, mas não mostra como a oferta se distribui dentro do território. Um município pode ter densidade comercial aceitável e, ao mesmo tempo, bairros inteiros sem nenhum ponto de compra próximo.
O estudo da Revista de Saúde Pública (SciELO), vol. 60, 2026, analisou 5.570 municípios e, em escala intramunicipal, os 91 municípios com mais de 300 mil habitantes (cerca de 77 milhões de pessoas). Foi nessa escala menor que apareceram os desertos e pântanos alimentares.
- Deserto alimentar: hexágono no primeiro quartil de acessibilidade a estabelecimentos saudáveis (≤ 5 por 1.000 habitantes).
- Pântano alimentar: hexágono no último quartil de acessibilidade a estabelecimentos não saudáveis (> 15 por 1.000 habitantes).
Quem depende do comércio local
Os dados do estudo mostram quem sente mais a diferença:
| Grupo | Número | Proporção |
|---|---|---|
| População dos 91 municípios em desertos alimentares | cerca de 25,1 milhões | 32,3% da população dos 91 municípios |
| População dos 91 municípios em pântanos alimentares | cerca de 14,8 milhões | 19% da população dos 91 municípios |
| População de baixa renda do Cadastro Único em desertos | 6,7 milhões | 38% desse grupo |
As diferenças regionais também importam. O Norte tem a maior proporção de pessoas de baixa renda em desertos (44,7%, segundo o texto do estudo). No Sul, está a maior proporção da população geral em pântanos (28,2%).
Quem não tem carro ou depende de transporte público tende a fazer compras a pé ou em pequenas trajetórias. Para esse perfil, a loja mais próxima define quais alimentos e medicamentos estão de fato disponíveis.
Impacto da distância no cotidiano
A distância muda a rotina de compra. Quando o ponto mais próximo fica fora do alcance a pé, cada ida ao mercado ou à farmácia vira um deslocamento. Esse custo pesa mais em compras frequentes, como alimentos perecíveis, e em remédios de uso contínuo.
Dois bairros com o mesmo número de lojas na média da cidade podem ter experiências muito diferentes, dependendo de onde elas estão. Por isso, a comparação útil para decidir onde morar ou onde instalar um comércio é a que olha o endereço, bairro a bairro, e não o total municipal.

Quais dados públicos mostram a oferta local?
Para localizar supermercados e outros pontos de venda de alimentos por bairro, o estudo de referência combina duas bases oficiais: um cadastro de estabelecimentos formais, que traz o código de atividade de cada loja, e um cadastro de endereços, que permite situar essas lojas no território. A POF completa o quadro como referência de consumo, não como contagem de lojas.
RAIS e códigos CNAE
A RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) registra estabelecimentos com vínculos formais de trabalho. Cada estabelecimento é classificado por um código CNAE, o que permite filtrar apenas o varejo alimentar. O estudo usou a RAIS de 2022 com 18 códigos CNAE de varejo alimentar. Esse recorte define o que entra na contagem de oferta: lojas fora desses códigos não são contabilizadas.
CNEFE e georreferenciamento
O CNEFE (Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos) lista os endereços do país. O estudo usou cerca de 111 milhões de endereços para fazer o georreferenciamento dos estabelecimentos, ou seja, atribuir a cada loja uma coordenada geográfica e, a partir dela, um bairro. Sem essa etapa, a RAIS informa quantos estabelecimentos existem em um município, mas não onde estão.
POF como referência de consumo
A POF 2017-2018 (Pesquisa de Orçamentos Familiares) fornece o padrão de consumo alimentar das famílias. Ela serve para interpretar a oferta à luz do que a população costuma comprar, e não para medir a quantidade de lojas.
| Base | O que fornece | Papel na comparação por bairro |
|---|---|---|
| RAIS (2022) | Estabelecimentos formais com código CNAE | Lista de lojas de varejo alimentar (18 códigos) |
| CNEFE | Cerca de 111 milhões de endereços | Localização de cada estabelecimento |
| POF (2017-2018) | Referência de consumo alimentar | Contexto de demanda |
As farmácias não entram nesses 18 códigos, porque o estudo cobre apenas varejo alimentar. Para compará-las, é preciso definir um recorte CNAE próprio antes de cruzar com os endereços.
Como medir o acesso a pé em um bairro?
Contar lojas por bairro gera números que não são comparáveis, porque os limites administrativos têm tamanhos e densidades muito diferentes. O estudo da Revista de Saúde Pública (SciELO, vol. 60, 2026) resolve isso com três decisões: uma malha regular de hexágonos H3, um filtro por número de domicílios e um alcance de 15 minutos a pé medido por 1.000 habitantes.
Unidade espacial: hexágonos H3 de cerca de 0,1 km²
O território é dividido em hexágonos da grade H3, cada um com área de cerca de 0,1 km². A malha não segue o desenho oficial dos bairros, então todos os hexágonos têm o mesmo tamanho. Dois bairros com o mesmo número de lojas podem apresentar acessos bem diferentes se um for mais populoso. Calcular o indicador por hexágono torna a comparação independente do recorte administrativo.
Filtro: mínimo de 20 domicílios
Só entram na análise os hexágonos com pelo menos 20 domicílios. Em um hexágono com poucas moradias, uma única loja altera muito a taxa por habitante, então o filtro reduz esse ruído. Depois da aplicação, restaram 145.730 hexágonos.
Distância: estabelecimentos alcançáveis em 15 minutos a pé
Para cada hexágono, conta-se quantos estabelecimentos podem ser alcançados a pé em até 15 minutos. O resultado é dividido pela população e expresso por 1.000 habitantes, o que permite comparar uma área muito povoada com outra pouco povoada.
| Critério | Valor no estudo | Efeito na comparação |
|---|---|---|
| Unidade espacial | Hexágono H3, cerca de 0,1 km² | Malha uniforme, independente de limites administrativos |
| Filtro | Mínimo de 20 domicílios | Remove hexágonos com população insuficiente; restam 145.730 |
| Distância | Até 15 minutos a pé | Define o que conta como alcançável |
| Métrica | Estabelecimentos por 1.000 habitantes | Normaliza pelo tamanho da população |
Como reaplicar a lógica ao seu bairro
Para comparar supermercados e farmácias no mesmo bairro, use a mesma malha e o mesmo critério de distância para as duas categorias. Assim, as diferenças refletem a oferta, e não métodos distintos.
O que são desertos e pântanos alimentares?
Um deserto alimentar é um hexágono H3 com pouca acessibilidade a estabelecimentos saudáveis de varejo alimentar. Um pântano alimentar é o caso oposto: alta acessibilidade a estabelecimentos não saudáveis. Segundo o estudo da Revista de Saúde Pública (SciELO, vol. 60, 2026), as duas categorias são definidas de forma operacional, pela posição do hexágono na distribuição observada, e não por um valor absoluto.
A unidade de análise é o hexágono H3 de cerca de 0,1 km². A acessibilidade é expressa em estabelecimentos por 1.000 habitantes. Cada categoria combina um quartil de acessibilidade com um limiar:
| Categoria | Tipo de estabelecimento | Posição no quartil | Limiar por 1.000 habitantes |
|---|---|---|---|
| Deserto alimentar | Saudáveis | Primeiro quartil (menor acessibilidade) | ≤ 5 |
| Pântano alimentar | Não saudáveis | Último quartil (maior acessibilidade) | > 15 |
Para classificar um hexágono, as duas condições devem ser verificadas em conjunto. Segundo a ficha, o deserto alimentar corresponde ao primeiro quartil de acessibilidade a estabelecimentos saudáveis (≤ 5 por 1.000 habitantes).
Os limites de 5 e 15 são relativos aos 91 municípios com mais de 300 mil habitantes analisados na escala intramunicipal. Eles servem para comparar bairros dentro desse conjunto e não definem uma régua nacional.

Como estão as grandes cidades brasileiras?
Nos 91 municípios brasileiros com mais de 300 mil habitantes, cerca de 77 milhões de pessoas, 25,1 milhões (32,3%) vivem em desertos alimentares e cerca de 14,8 milhões (19%) vivem em pântanos alimentares. O estudo da Revista de Saúde Pública (SciELO), vol. 60, 2026, é a fonte desses números.
Exposição geral da população
| Indicador | Pessoas | Proporção |
|---|---|---|
| Vivem em desertos alimentares | 25,1 milhões | 32,3% da população dos 91 municípios |
| Vivem em pântanos alimentares | 14,8 milhões | 19% da população dos 91 municípios |
| Baixa renda do Cadastro Único em desertos | 6,7 milhões | 38% da população de baixa renda |
Leitura dos dados
- A proporção de população de baixa renda em desertos (38%) é mais alta que a da população geral (32,3%). Nas grandes cidades, a falta de acesso a alimentos saudáveis pesa mais sobre quem tem menor renda.
- Os desertos e os pântanos são medidos de forma independente. Um mesmo bairro pode ter as duas condições ao mesmo tempo, e os totais de 25,1 milhões e 14,8 milhões não se somam nem se excluem.
- O escopo é o varejo alimentar (18 códigos CNAE da RAIS 2022).
Quais são os limites dos dados por bairro?
O estudo de base mede uma coisa: quantos estabelecimentos de varejo alimentar uma pessoa alcança a pé. Não mede a oferta de farmácias, a qualidade dos produtos, os preços nem a situação atual dos estabelecimentos. Quem compara bairros para decidir onde morar deve tratar essas dimensões como ausentes dos dados.
| Dimensão | Coberta pelo estudo | Situação na ficha |
|---|---|---|
| Varejo alimentar | Sim | 18 códigos CNAE de varejo alimentar |
| Farmácias | Não | O estudo não cobre farmácias |
| Qualidade dos produtos | Não | A classificação “saudável” ou “não saudável” é uma contagem de estabelecimentos por 1.000 habitantes, sem avaliar o que é vendido |
| Preços | Não | Nenhum valor de produto ou cesta é reportado por bairro |
| Atualização | Parcial | As bases usadas têm anos de referência diferentes e a ficha não informa a periodicidade de atualização |
Um bairro sem deserto alimentar pode ter pouca oferta de farmácias, e o inverso também vale. Um estabelecimento que abriu ou fechou após o recorte não aparece nos resultados.
Limiares relativos aos 91 municípios
Os rótulos de deserto e pântano valem apenas para os 91 municípios com mais de 300 mil habitantes; aplicá-los a cidades menores, ou compará-los com outros conjuntos, mistura grupos de referência diferentes.
Origem da cifra de 32,3%
O estudo da Revista de Saúde Pública atribui a cifra de 32,3% (cerca de 25,1 milhões de pessoas) à população dos 91 municípios, e não ao país inteiro. Uma coluna de opinião publicada na Mercado&Consumo em 18/08/2026 atribui o mesmo número a um mapeamento do MDS de 2024. A ficha não confirma essa atribuição. Antes de citar a cifra como oficial, confira o texto original do estudo e, se possível, o documento do MDS. Se a origem não puder ser confirmada, cite apenas o estudo e o seu escopo.
Como usar a comparação para escolher onde morar?
Para escolher entre dois ou três bairros, use os indicadores como critérios aplicados aos mesmos endereços candidatos, e não como um ranking geral. A comparação só funciona quando os bairros têm perfil comparável e as diferenças são verificadas no terreno, não apenas em um mapa.
Montar a lista de bairros candidatos com o mesmo perfil
- Defina o perfil antes de pesquisar: tipo de moradia (apartamento ou casa), faixa de preço que você pode pagar e distância máxima do trabalho ou da escola.
- Selecione de três a cinco bairros que atendam a esse perfil. Bairros com padrões construtivos muito diferentes não devem entrar na mesma comparação, porque preço e oferta de serviços mudam com a tipologia.
- Para cada bairro, anote a mesma série de indicadores: preço médio por metro quadrado, a partir de dados de transações ou anúncios disponíveis para o município, e a quantidade de supermercados e farmácias identificados.
Conferir farmácias em levantamento de campo
A contagem de farmácias precisa ser feita localmente, em um levantamento de campo:
- Percorra a pé o entorno de cada endereço candidato e registre cada farmácia, com nome, horário de funcionamento visível na fachada e a informação de atendimento 24 horas, quando houver.
- Repita a contagem em dias úteis e em fim de semana, em horário comercial e à noite, porque horários e disponibilidade variam.
- Verifique se a farmácia mais próxima fica dentro do próprio bairro ou se é preciso atravessar outra área ou uma via de grande movimento para chegar a ela.
Comparar o tempo de transporte público até o trabalho
- Meça o tempo porta a porta real no horário de pico, incluindo a caminhada até o ponto e a espera pelo veículo.
- Use sempre o mesmo destino para todos os bairros. Uma linha direta mais curta pode perder a vantagem se exigir baldeação.
- Anote o número de integrações e o intervalo entre veículos, pois esses fatores pesam mais no tempo total do que a distância em linha reta.
Perguntas frequentes
Por que as farmácias não aparecem nesta comparação?
Os dados públicos usados no estudo cobrem apenas o varejo alimentar, identificado por 18 códigos CNAE da RAIS 2022. Para avaliar farmácias é preciso outra base ou um levantamento de campo.
O que significa deserto alimentar na prática?
É um hexágono de cerca de 0,1 km² no primeiro quartil de acessibilidade a estabelecimentos saudáveis, com até 5 por 1.000 habitantes alcançáveis a pé em 15 minutos. Como os limites são relativos aos 91 municípios analisados, eles não funcionam como padrão absoluto para comparar outras cidades.
Os resultados por bairro valem para todas as cidades do Brasil?
Não. A análise intramunicipal cobre apenas os 91 municípios com mais de 300 mil habitantes, cerca de 77 milhões de pessoas. Os 5.570 municípios entram somente na análise em nível municipal.